«Ele está de volta» – uma sátira feroz à sociedade actual

eleestavoltAPor: José d’Encarnação

 

O livro do noremberguês Timur Vermes Ele Está de Volta, já traduzido em 35 línguas, constitui uma sátira feroz à sociedade actual. Um líder político ressuscita, depois de ter morrido em 1945, e queda-se estupefacto perante a nova realidade que ora lhe é dado viver no seu próprio país.

 

 

 

 

Para já, ninguém acredita que é ele mesmo e tomam-no, portanto, como um farsante, pois dá a impressão que para ele o tempo parou e que, para ele, as ideias que há mais de 50 anos queria pôr em prática teriam hoje a mesma validade. Daí a ser convidado para um programa de televisão como humorista foi um passo, um programa assaz polémico, como seria de esperar, mas que, até por isso mesmo, acabou por redundar num êxito total, a ponto de uma editora – após largos meses de êxito – lhe propor mui rendível publicação de um livro. E é com esse livro, na primeira pessoa, que Timur Vermes nos brinda.

Escusado será dizer que o estatuto de morto-vivo permite ao autor tecer sobre o mundo que o rodeia as observações mais acutilantes, obrigando-nos, pois, a nós próprios a reparar nas enormes incongruências de uma sociedade onde parece que tudo interessa menos viver o dia-a-dia. Sentimo-nos, amiúde, irmanados nessas críticas e, por isso, este é um dos livros cuja leitura, de tão aliciante, quase não permite pausas.

 

Alguns tópicos

Das inúmeras situações (re)criadas e comentadas, respigo frases que se me afiguraram de acutilância maior (utilizei a edição de Setembro de 2013, de Lua de Papel).

«Quanto maior for a mentira, mais dispostas estão as pessoas a acreditar nela» (p. 108).

«O facto de no Ocidente as pessoas se poderem dedicar sobretudo a discussões infantis tinha que ver com o facto de as coisas mais importantes estarem a ser tratadas pela alta finança americana, que nesse continente continuava a dominar» (p. 108-109).

«O chefe daquela pocilga preocupava-se mais com a cera do seu automóvel desportivo do que com as necessidades dos seus apoiantes» (p. 110).

«Um povo saudável precisa de uma guerra de cinquenta em cinquenta anos para assim renovar o sangue» (p. 111).

«[…] Os operadores de câmara […] são os funcionários mais sordidamente vestidos à face da Terra, superados apenas pelos fotógrafos de imprensa. Não sei por que motivo é assim, mas tenho a ideia de que os fotógrafos trazem muitas vezes vestidos os trapos que os operadores de câmara de televisão acabam de deitar fora. A razão de ser desses farrapos pode ter que ver com o facto de eles acharem que ninguém os irá ver, pois no fundo são eles quem tem a máquina na mão» (p. 154).

«Aliás, engano-me muito raramente. Esta é uma das vantagens de uma pessoa só entrar na vida política com uma experiência de vida perfeitamente acabada. E não é à toa que eu digo “perfeitamente acabada”, pois nos dias que correm há muitos alegados políticos que talvez tenham passado um quarto de hora atrás de um balcão ou espreitado de passagem pelos portões de uma fábrica, acreditando por isso saber como é a vida real» (p. 176).

«Nunca se sabe o que as pessoas podem aprontar com a assinatura. Hoje assina-se ingenuamente o nome num pedaço de papel, no dia seguinte alguém faz uma declaração com essa assinatura e, de um momento para o outro, já a Transilvânia passou irreversivelmente para um qualquer estado corrupto dos Balcãs» (p. 178).

«Junto a uma grande auto-estrada, utilizada para transportar biliões de bens ao nível da economia nacional, há sempre um adorável coelhinho a tremer de medo» (p. 179).

«[…] O único objectivo é espalhar o maior caos possível, de modo a que, na procura da verdade, as pessoas se vejam obrigadas a comprar mais jornais e a assistir a mais programas de televisão. Isso constata-se precisamente nas secções de economia, pelas quais antes ninguém se interessava, mas que agora todos têm de seguir para poderem ser ainda mais atemorizados por este terrorismo económico. Comprar acções, vender acções, agora ouro, agora obrigações, depois imóveis. O cidadão comum é forçado a enveredar por uma carreira paralela de especialista em finanças. O que em ultima análise apenas significa que participa agora num jogo de sorte e azar em que a aposta são as suas próprias poupanças, que tanto trabalhou para reunir. Não faz sentido» (p. 193).

«Depois de um incêndio, eu não serei aquele que fica semanas e meses a chorar pela casa perdida, mas sim aquele que se põe a construir uma casa nova» (p. 252).

Há também, naturalmente, comentários a propósito do uso constante do telemóvel; dos noticiários em que passam, rápidas, sob o apresentador notícias outras, de modo que a gente não sabe se há-de ligar ao que ele diz ou ao que está a passar…

Saborosa é a crítica – em que o estratagema do ‘ressuscitado’ se arvora em inteligente escudo de salvaguarda.


cyberjornal, 8 Novembro 2014

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