Cais Oeste – para onde podemos fugir?

TECaisFRicardoRodrigues 3Por: José d’Encarnação

 

Termina no próximo domingo, dia 8, a série de representações que o Teatro Experimental de Cascais está a levar a efeito, desde 30 de Novembro, da peça «Cais Oeste», do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès (1948 - 1989), no Teatro Municipal Mirita Caismiro. A peça foi escrita em 1983 e o Teatro Experimental de Cascais já teve ocasião de apresentar, há cinco anos, uma outra peça deste autor, «Robert Zucco», datada de 1989.

TECaisFRicardoRodrigues 2Como é natural, o texto reflecte não apenas a existência – não muito feliz – do autor, que morre aos 41 anos vítima de SIDA, mas também, e muito especialmente, o seu olhar crítico, diria devastador, sobre a sociedade que o rodeou, dominada pelo capital, de que há todo o interesse em fugir, mesmo que para isso seja necessário despojarmo-nos do relógio Rolex de alto preço, do isqueiro Dupont de ouro, do anel, dos botões de punho: «Onde se apanha o barco?». «Não me chateies com essa história do dinheiro!». «Cheira tanto a dinheiro!». «A culpa disto tudo é as rendas baratas!». «Tudo acabou. Não resta nada! Nem o mais pequeno sonho em parte nenhuma!».

TECaisFRicardoRodrigues 1Há um pretinho enigmático (Djucu Dabó) que perpassa pelas cenas sem uma palavra, comovendo-se agora, fazendo-se indiferente depois e é ele quem, no fim, com uma kalashnikov, põe termo à vida de vários personagens. O destino inexorável? O oprimido que não ousa sequer falar? «Negro, não passas de uma bosta!», alguém vitupera. Mas não é.

Teresa Côrte-Real e Luiz Rizo compõem um magnífico casal de anciãos, que constituirá bom pretexto para se falar da velhice e das suas angústias: «Estou farto de ser velho!». «Eu nem te estou a tocar, velho imbecil!». Por outro lado, um jovem tenta, a todo o custo, insistentemente, seduzir e levar «lá para dentro» a menina, que tem dificuldade em resistir. Pincelada de gerações vigorosamente contrastada.

Escreve Miguel Graça, responsável pela dramaturgia de Cais Oeste:

«Num mundo corrompido, onde a afectividade foi substituída pelo comércio (o deal, como ele lhe chama) há um homem que decide morrer e uma mulher que o acompanha, mas não sabemos quem guia quem, nem sabemos como foram ali parar, a esse espaço amplo e ao mesmo tempo claustrofóbico que serve de cenário para uma luta constante ente as diferentes personagens que o habitam».

E o cenário é, como Carlos Avilez já nos habituou, minimalista: uma cadeira acolchoada a simbolizar o bem-estar, dois bancos sólidos, pregados ao chão. Tudo rodeado de folhas secas, outonais, a sugerir desagregação, langor… Ao fundo, ampla janela por onde nos apercebemos do nascer e pôr do sol…

«Os cães rebentaram o silêncio da noite», declara um personagem, como se preferisse que o silêncio se mantivesse e cães não houvesse. O certo é que há noites – e nós preferiríamos pensar em arrebóis. Há silêncios – e nós gostaríamos que mais falas houvera. Há cães raivosos – e nós ansiamos por que todos passem, novamente, a ser tratados como pessoas!

 Fotos: TEC/Ricardo Rodrigues

cyberjornal, 3 janeiro 2017

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