Joaquin Lera canta em Portugal

LeraGuuitarraMC5377ppPepita Tristão (Texto)

Miguel Cardoso (Fotos)

Chegou ao hotel onde o esperávamos, acompanhado por dois amigos. A cantora Ariane Libertad e o pianista Fidu, com os quais prepara uma digressão pelo nosso País. Pede desculpas pelo breve atraso, logo aceites. Embora seja um dos grandes da cultura espanhola contemporânea, Joaquin Lera mostra-se educado e afável, não deixando que o gelo inicial se chegue a instalar. Um sorriso ladino ilumina-lhe o rosto emoldurado por irreverentes caracóis de neve.

 

 

 

 

 

ArianeLeraFidu5326MC14ppJoaquin Lera nasceu em Madrid. É cantor, compositor e poeta. Ou será o inverso? Como intérprete, é senhor de uma voz quente e envolvente que extravasa sentimentos, enquanto com os dedos acaricia as cordas da sua inseparável guitarra. Como poeta, desnuda a alma, deixando a descoberto as emoções. Um extraordinário domínio da língua e a capacidade de brincar com as palavras, são bem demonstrativos de que não é apenas um bom letrista, mas um poeta que também canta e sabe escrever poemas próprios para serem musicados.

 

Esta apetência pelas artes poderá ser justificada pela genética já que a quase totalidade dos seus 11 irmãos se dedicam a alguma forma de arte. «Desde pequenito ouvia  muita música, de diversos géneros, pois cada um dos meus irmãos tinha as suas preferências e levava para casa discos dos seus músicos favoritos. Também lia muita poesia, porque em casa houve sempre livros de grandes poetas».

 

Talvez por isso, Joaquin Lera que aos 9 anos já tocava guitarra, começou a musicar com essa idade poetas como António Machado e Miguel Hernandes.

 

Recordando a sua infância passada na Galiza, fala-nos dos irmãos, um dos quais é o actor Chete Lera. Tem ainda quatro irmãos músicos, dois poetas, um dramaturgo e uma artista plástica.

 

«Todos eles sabem dedilhar a guitarra», diz-nos. Aos 16 anos decidiu sair de casa e rumar a Madrid para abraçar uma carreira musical. «Estudei canto numa academia chamada Music box, com a professora Angelines Cordedera, que queria que eu enveredasse pelo canto lírico, mas essa não era a minha praia», recorda com um sorriso, a que certamente não é alheia a memória daqueles anos de tertúlias e boémia.

 

Foi por então que começou a frequentar «locais míticos da “movida” madrilena, como o "Song Parnass" de Lavapiés». Privou com Joaquin Sabina, Alberto Pérez, Rafael Amor, Manolo Tena, Juan Antonio Muriel e Antonio Banderas. Apresentou-se nas melhores salas de Madrid, como Libertad 8, Elígeme, Kingston e Galileo Galilei actuando com músicos como Manolo Tena, Carlos Varela, Ketama e Albita.

 

Junto aos irmãos Carlos, Justo e Héctor integraram o grupo “The Ventolera”. Fez ainda parte do Duo “Los Contrautores”.

 

Deu espectáculos por todo o mundo, designadamente, em Porto Rico, Alemanha, Malta, Bulgária, Italia, Japão, Coreia do Norte, Eslováquia, Áustria, Cuba e Jugoslávia.

 

Do seu currículo, consta a gravação de 24 Cds e de diversos Vídeo Clips. Compôs temas musicais para publicidade, teatro, cinema, documentários e séries televisivas e editou sete livros de poemas.

 

 

La Cuna del Agua

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Em breve, no dia 8 de Abril, irá apresentar o seu mais recente trabalho discográfico, CD e DVD, intitulado “La Cuna del Água”, editado pela Fábrica de Sueños. «O CD tem 13 temas e o DVD 14», diz-nos acrescentando que este trabalho foi produzido e realizado por ele próprio. Na ocasião, será também apresentado o seu livro ” Cartas a Maitena”, com chancela da Editorial Cuadernos del Labirinto”. A cerimónia decorre às 19 horas, na Sala Manuel de Falla, da Sociedad General de Autores e conta com a participação de Alberto de Cuenca e Luis Eduardo Aute.

 

Ambas as obras já estão à venda na FNAC e no Corte Inglês. A obra discográfica revela-nos um Lera intimista. «O que me inspira são os sentimentos. Componho sobretudo canções de amor e também sobre as cidades. É uma música muito urbana. Neste último CD incluí um tema intitulado “Ven comigo a Lisboa”. Já fiz duas canções dedicadas a Portugal. A primeira, foi composta no Porto e chama-se “Fados”».

 

Se o fado interpretado por Ariane Libertad o fascinou, ouvi-la cantar temas de Edith Piaf foi posivelmente o ponto fulcral que o levou a aceitar o seu desafio para cantarem juntos pelo País, cruzando temas portugueses, castelhanos e latino-americanos.

 

Para além deste projecto, Lera está presentemente a gravar um disco de música experimental e a musicar um documentário rodado na Sérvia, pois a acção decorre durante a antiga guerra dos Balcãs.

 

Apesar da sua elevada consciência social, o músico afirma acreditar que se «deve encarar a vida de uma forma positiva». E acrescenta meio a brincar «De outra forma, do modo como as coisas estão, entra-se em depressão. Para mim a música é uma terapia contínua, que me evita ter de consultar o psiquiatra.»

 

Lamenta que presentemente a cultura esteja a ser relegada para segundo plano em muitos países. «Os governos deviam apostar mais na cultura e na inovação. Sem cultura não somos nada».

 

A conversa ia longa e o nosso interlocutor iria ainda conceder uma outra entrevista, pelo que nos despedimos, não sem antes o termos ouvido interpretar, juntamente com Ariane, uma canção tradicional da América do Sul, “Sapo cancionero”.

 

 

 

cyberjornal, 24 março 2014

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