Em clima presidencial, o cocktal dinatoire anunciou as comemorações

Cascais650logoPor: José d’Encarnação 

 

Um muito bem servido cocktail dinatoire abriu, a partir das 21 horas, no passado dia 21, as comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vila.

 

 

(Carlos Avilez, Maria do Céu Guerra e José d'Encarnação)

Cascais650anosencarnClaro, apressei-me a ir ao dicionário cibernético e fiquei a saber tudo sobre o anunciado (na hora) cocktail dinatoire: trata-se de um «apéritif au cours duquel sont servis de nombreux amuse-gueules et qui peut donc remplacer un vrai dîner». Perdão, para além da língua inglesa, há poucos idiomas que hoje se conheçam e, então, o francês é aquele que mais anda pelas ruas da amargura. Eu traduzo: «Aperitivo durante o qual se servem numerosos petiscos e que pode, por isso, substituir um jantar no verdadeiro sentido da palavra». Ora toma!

 

Inteligentes foram, pois, os serviços de relações públicas da Câmara, porque (surpresa!?) omitiram na informação a referência ao cocktail dinatoire. Fica-nos de emenda: para a outra vez, é tratar de perguntar tudinho com antecedência, para não se ir jantado, às 21 horas, com cafezinho já bebido e tudo, e depois passam os senhores com todos aqueles gulosos acepipes, uma tentação, aqueles brigadeiros de caça, os cubinhos de sushi, ui…

 

Começaram, pois, regaladamente as comemorações. E o aviso sério à galera: informar-se bem, previamente, do que vai acontecer!

 

(convidados)

Cascais650anosO acontecimento

 

A ideia era que se iria apresentar a Comissão de Honra das Comemorações e ter uma ideia do programa já gizado para o período de Junho de 2014 a Junho de 2015.

 

Da Comissão soube-se que era presidida por Francisco Pinto Balsemão, que fez discurso mui oportuno a referir-se à vila como um lugar de convergência, ecuménico no sentido de saber receber e ter recebido as mais variadas gentes ao longo da sua história; e estas comemorações assumem-se, pois, como forma de cimentar a identidade própria que a vila tem, na afabilidade das pessoas e do clima.

 

O Presidente da Câmara saudou os convidados e traçou uma panorâmica do que vai pretender fazer-se, para relembrar esse ano em que os cascalenses ousaram quebrar a sua dependência de Sintra, «cuja aldeia eram». Um livrinho distribuído na ocasião complementa o programa referido.

 

Não terão explicado muito bem a Nikolay Lalov a circunstância em que lhe solicitaram o concerto que culminou o serão. Disseram-lhe que era um ‘concerto VIP’ e maestro que se preza não está com meias-medidas e quis brindar-nos com a abertura de ‘L’Amore Industrioso’ de João de Sousa Carvalho (1745-1800), um protegido d’el-rei D. José I e professor de música da Corte. Nem toda a gente se apercebeu que a peça tinha três andamentos e, por isso, houve aplausos entre um e outro (o mesmo aconteceria outras vezes…). Veio depois «Exultate Jubilabe», de Mozart, em que exultámos e nos rejubilámos com a linda e potente voz da soprano Sandra Medeiros: brilhou sobejamente! E, após o «intermezzo» do austríaco Franz Shrecker (1878-1934), a Orquestra de Câmara de Cascais Oeiras, atacou a «Suite rústica nº 2» de Fernando Lopes-Graça (era obrigatório, claro!) e terminou com o «Divertimento para cordas» de Sérgio Azevedo, um jovem (nasceu em 1968) que tem escrito peças para a orquestra. E o maestro ainda nos serviu um ‘encore’, o 1º andamento (creio) de uma peça de Joly Braga Santos, que é igualmente um dos mais aplaudidos no reportório da OCCO.

 

Foi, de facto, ‘concerto VIP’; mas, se calhar, o que se teria pretendido era mais um ‘aperitivo’ musical, levezinho, a suscitar apetite para as muitas actuações que a OCCO vai ter, sem dúvida, no decurso das comemorações.

 

Um serão em grande

 

Cumpre, por conseguinte, assinalar que foi, na verdade, uma noite «em grande», tão ao gosto do actual executivo camarário. Com imensos fotógrafos e imensas poses, para gáudio das revistas sociais. Ora ponha-se agora aí a jeito – e logo há cinco objectivas a disparar nervosamente!... Não pode perder-se pitada!

 

Na página da Câmara – sob o título «Cascais celebra 650 anos de História | Início das Comemorações» – poder-se-á aceder (com um bocadinho de sorte e alguma paciência na busca) ao vídeo (excelente reportagem de Laís Castro, com edição e montagem de Ana Laura) do acontecimento. Lá vem igualmente o rol das 73 personalidades e das 26 colectividades (com mais de 50 anos) que, juntamente com os membros do Executivo e o presidente da Assembleia Municipal, integram a Comissão de Honra. Aí se verá, na prática, o espírito de convergência a que se referiu Pinto Balsemão, dado encontrarmos individualidades dos mais variados quadrantes.

 

E o renovado Palácio da Presidência da República, na Cidadela, constituiu, na verdade, local paradigmático e simbólico para esta solene apresentação. Ouviram-se muitos comentários de convidados a manifestar a inesperada admiração pelo sítio, que não conheciam assim restaurado.

 

BalsemaoCascais650As recordações de Pinto Balsemão

 

Francisco Pinto Balsemão teve ocasião de viver também numa Cascais bem diferente da de hoje; não será, pois, despropositado transcrever aqui uma passagem – ainda que um tudo-nada longa – do depoimento que deixou na página da Câmara. É que, na verdade, tal como ele, centenas de cascalenses que viveram as comemorações dos 600 anos, em 1964, tiveram aqui as experiências de que Pinto Balsemão ora aproveitou o ensejo para recordar. A Cascais dos anos 50 e 60! Bem haja, Francisco!

 

«Foi nas nossas praias e na nossa baía que aprendi a nadar, com o velho professor Teixeira, a remar, a velejar, a pescar lulas, a fazer ski aquático e também a namorar, a “bater” a praia do Tamariz, a piscina do Hotel Atlântico, com eventual subida aos gelados Santini. Foi no Guincho e na piscina da Marinha que ensinei os meus filhos a furar as ondas, a fazer carreirinhas, a mergulhar. Foi no Golf do Estoril que aprendi, com o velho professor Bernardino, a jogar o meu desporto favorito e que entusiasmei a minha mulher a praticá-lo. Foi na antiga patinagem do Dramático, ali ao pé do hipódromo, que aprendi, com o velho Xavier, a jogar hóquei e também dei os meus  passos de dança, nos bailaricos de sábado à noite, que levariam a voos mais altos na Choupana, na Canoa, na Ronda, no eterno Van Gogo.

 

Foi na Marginal que pedalei livre (e arriscadamente, já na altura) de bicicleta, infringindo as proibições dos meus pais, e que, mais tarde, numa fantástica Cucciolo, levei a passear algumas meninas mais atrevidas. Foi num arraial da Parada que, pela primeira e única vez, ousei fazer uma pega de caras a um novilho que, na altura, mais me parecia um enorme búfalo. Foi em Cascais que assisti aos melhores festivais de jazz, do esplendor de Villas-Boas à capacidade de continuação de Duarte Mendonça.

 

[…]

Sou devedor de Cascais e, definitivamente, não quero a reestruturação da minha dívida…».

 

 

Fotos: CMC

cyberjornal, 28 março 2014

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