Cascais e os artistas ‒ uma sugestão

cascaisQuotidiano14Por: José d’Encarnação

 

 

Encerra amanhã, 21, a exposição «Cascais – Quotidiano e Paisagens nos Séculos XIX-XX», que esteve patente no Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, desde 15 de Maio, iniciativa integrada nas comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vila.

 

 

 

 

 

 

 (Desenho de Columbano)

ColumbanodesenhoJosé António Proença, responsável pelo museu, organizou-a em três núcleos: «Um caderno de inéditos de Columbano Bordalo Pinheiro», «Olhares sobre Cascais» e «Os banhos e a faina piscatória». Reuniram-se, para o efeito, obras de Alfredo Roque Gameiro, Carlos Bonvalot, Columbano Bordalo Pinheiro, D. Carlos de Bragança (el-rei D. Carlos), Enrique Casanova, João Vaz, Miguel Ângelo Lupi, Sousa Pinto e Visconde de Atouguia. Boa parte delas reproduzidas e bem identificadas no catálogo.

Bonvalot foi, sem dúvida, o artista mais representado; aliás, de tempos a tempos se recorda, em exposições, a obra valiosa deste pintor, que, natural de Paço de Arcos, viveu em Cascais e na vila viria a falecer em 1934 (por exemplo, nesse mesmo museu, de 17-11-2009 a 21-03- 2010, Cascais de Carlos Bonvalot).Também as aguarelas de el-rei D. Carlos são conhecidas e o Museu do Mar faz jus à sua memória. Não será, pois, estranho que se realce e aplauda a ideia de apresentar agora, como novidade, o caderno de bem graciosos desenhos inéditos de Columbano, feitos em Cascais na última quinzena de Setembro de 1919 (recorde-se que o Outono era – e é! – a estação de excelência, aqui!). Sugestivos apontamentos gráficos, a denunciarem, em traço quase despretensioso, um estado de alma, um gesto, um significativo instantâneo…

No chuvoso final da tarde de quinta-feira, 18, a Doutora Raquel Henriques da Silva realçou, perante uma trintena de atentos ouvintes, a importância dos autores representados na mostra (em cuja concretização colaborara), salientando os aspectos mais importantes do conjunto.

 

Uma sugestão

 

A conferência fora anunciada como «Cascais através da pintura» e, por isso, após ter ouvido a historiadora de Arte, não deixei de pensar que, dos 600 para os 650 anos, Cascais foi também alfobre de artistas e fonte de inspiração. E, se calhar, uma outra exposição – ou iniciativa – que recorde as artes em Cascais na segunda metade do século XX é capaz de não ser despicienda.

Tempos áureos foram os anos 60, por exemplo, com a galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol no seu auge, galeria por onde passaram, seguramente, reconhecidos nomes das artes plásticas portuguesas, sempre com o incondicional apoio de Serra e Moura: Sarah Afonso, Michael Barrett, Mário Silva... E, nessa altura, havia salões (da Primavera, do Outono…), em que os temas Cascais e Costa do Sol eram obrigatórios e o espólio artístico do organismo que sucedeu à Junta – se é que não desapareceu ou jaz guardado numa qualquer arrecadação… – será, nesse aspecto, deveras relevante. Recorde-se que, mesmo após o 25 de Abril, a galeria da Junta se notabilizou, nomeadamente ao tempo de Cruzeiro Seixas, que ali trouxe, entre muitos outros, Mário-Henrique Leiria, em Agosto de 1978. Sempre continuará a lamentar-se que os responsáveis, a partir de certa altura, tenham considerado as Artes Plásticas como algo de somenos.

Basta folhear o boletim Cascais e os Seus Lugares e a imprensa local dos anos 60 para verificar que, semanalmente, Adelaide Félix, por exemplo, mantinha no Jornal da Costa do Sol a rubrica «Exposições de Arte e sua recensão», que nunca se deixou esmorecer. E há que lembrar a acção espantosamente inovadora do escultor Óscar Guimarães ao pensar, como presidente, em transformar o rés-do-chão do novo edifício da Junta de Freguesia de Cascais, na Galeria JF, que também acolheu uma plêiade de artistas. Hoje continua, mas sem o fulgor mediático de outrora, seguida de perto pelo espaço que foi da Junta de Freguesia do Estoril, também ele com um programa continuado de exposições da mais variada índole.

Fenecida a vertente artística da sucedânea da Junta de Turismo, coube a Lima de Carvalho, na esteira do que nas Arcadas se fizera, retomar na galeria do Casino – também ela, inclusive, por imperativos da concessão, um lugar obrigatório para a Arte em Cascais – a ideia dos salões, em que também a temática local, mormente nos da chamada pintura naïve, era de inspiração obrigatória.

Galerias, de resto, nunca faltaram em Cascais. Para além do espaço do posto de turismo da Rua Visconde da Luz, a Musical de Cascais teve programação intensa e continuada na 2ª metade da década de 90. Hoje, são os museus (o Centro Cultural, a Casa das Histórias, a Casa de Santa Maria, o Museu da Música Portuguesa…) que concitam mais a atenção.

Sirva, pois, este fugaz relancear para, quiçá, encontrar eco: a Cascais nas Artes Plásticas da 2ª metade do séc. XX merece ser recordada!

 

 

 

cyberjornal,20 Setembro 2014

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