«E não é a política que os manda calar!»

OlgaCadavalPor: José d’Encarnação

«Agora é um momento de crise em toda a parte. Mas, se – Deus quiser, hão-de surgir coisas boas, com certeza. Artistas há sempre! E não é a política que os manda calar!».

Foi esta frase, de Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, que diante de nós ficou projectada durante todo o concerto com que Olga Prats, sua afilhada, nos presenteou.

 

OlgaPratsFoi na noite de sexta-feira, 17 de Janeiro, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, no âmbito da comemoração do nascimento da Marquesa de Cadaval (17.01.1900 – 21.12.1996).

Assistimos primeiro à projecção, em antestreia, do documentário, realizado por João Santa-Clara, intitulado «Marquesa de Cadaval – Uma Vida de Cultura». Mário João Machado, também ele responsável pela produção do filme, deu as boas-vindas aos convidados e salientou a enorme importância que Olga Cadaval deteve não apenas para a vila de Sintra e no âmbito meramente musical (esteve intrinsecamente ligada, como se sabe, aos festivais de música de Sintra) mas também para a Cultura em geral, no nosso País. Revemos na Senhora Marquesa a «genuína cidadã europeia, cuja vida foi síntese feliz da riquíssima herança dos saberes recebidos e da prodigalização de atitudes culturais em que deixou marcas do mais sofisticado gosto e sensibilidade».

Deliciou-nos o documentário, porque – tal como é apresentado no programa – nele ouvimos «figuras da cultura portuguesa e internacional, de familiares e amigos que, em conversa informal, […] testemunham como o seu contacto com Dona Olga foi importante não só para elas próprias como para tantos artistas, músicos do mais alto gabarito, a nível mundial, que beneficiaram do seu apoio e de um mecenato exemplarmente desinteressado».

Uma senhora que privou com literatos como Gabriele d’Annunzio ou Marinetti (o homem do futurismo); com Eugénio Pacelli (o futuro Papa Pio XII); com músicos como Cole Porter, Ravel, Stravinski, Rubinstein; com cientistas, como Marconi; com pré-historiadores, como Henri Breuil…

Fascina-nos, de facto, esta «grande senhora que soube enriquecer a cultura do tempo que lhe coube», «uma personalidade que importa conhecer cada vez melhor e mais profundamente».

E o serão culminou com o virtuosismo de Olga Prats – que da Marquesa teve nome, porque seu pai «dedicou mais de 40 anos da sua vida a um dos mais aristocráticos e tradicionais nomes da nobreza portuguesa», escreveu no programa. E as peças que executou foram todas elas precedidas de uma explicação, pois estavam umbilicalmente ligadas a momentos da vida das duas Olgas, a pianista e a sua benemérita ‘madrinha’, que inclusive comparticipou na compra do seu piano de estimação. Começou (e viria a terminar) com o tema «Dolor», da autoria de António Donosti, interpretando, de seguida, «Gavotta 1 e 2» de Bach, «Zamba» do sevilhano Joaquín Turina e «Jeunes Filles au Jardin» do compositor catalão Frederico Mompou (o pai de Olga Prats era de origem catalã e a pianista passou larga temporada em Barcelona, com uma bolsa).

Permita-se-me uma breve nota pessoal. O Centro Cultural Olga Cadaval lembra-me sempre o ‘vizinho’ Cine-Teatro Carlos Manuel, onde tive o privilégio de assistir – vindo da Quinta do Vinagre, onde passei férias, por exemplo, no Verão de 1962 – a vários concertos do Festival de Sintra, que dava então os primeiros passos, justamente com o apoio da Senhora Marquesa, guindando-se, já então, ao primeiro plano das iniciativas musicais do nosso País. Foi, sem dúvida, o eco desses tempos idos que a mim me envolveu e que, nessa noite de 17 de Janeiro, acabou também por envolver a grande maioria dos assistentes, pois, de uma forma ou doutra, terão sentido bem vivo o carisma enorme de uma personalidade ímpar e forte, que, na verdade, importa não esquecer!

cyberjornal, 24 janeiro 2014

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