«Divinas Palavras» pelo TEC – um espectáculo!

TECDivinasPT19ppPor: José d’Encarnação 

Está em cena no Mirita Casimiro (Monte Estoril), até final deste mês de Julho, a peça «Divinas Palavras», de Ramón del Valle-Inclán.

É um espectáculo, sim, mas note-se, antes de mais, que se trata simultaneamente – e acima de tudo! – da PAP (Prova de Aptidão Profissional) dos 39 finalistas do curso de interpretação da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Daí que haja, por exemplo, três elencos, a obrigar os estudantes a desempenhar mais do que um papel e, por outro lado, a contracenarem com oito actores profissionais da companhia, na presença (também em palco) de estudantes do 2º e do 1º ano da escola, que se disponibilizaram para integrar o numeroso grupo de figurantes. Uma prova, portanto, e um exercício – sob o olhar atento de um júri expressamente nomeado para o efeito.

 

 

 

 

TECDivinasPT27ppDir-se-á, por isso e em primeiro lugar, que só a experiência e o génio de Carlos Avilez – bem secundado por Fernando Alvarez (cenografia e figurinos), Natasha Tchitcherova (coreografia) e Nicolau Esteves (movimento) – poderiam lograr pôr em cena, rigorosamente, tantas personagens, cada uma com seu jeito especial e sua função bem específica no conjunto.

E o júri aí esteve, todo olhos e ouvidos, de lápis na mão a fazer as suas anotações para a nota final.

 

A história

Mais uma vez foi Miguel Graça quem assinou a dramaturgia e fez a sua versão da obra, a partir da tradução do original castelhano feita por Jorge Silva Melo.

A história em si é, aparentemente, muito simples: quando fica órfão de mãe, Laureano – um anão idiota que passa o tempo metido numa reles caixa, exposto à comiseração e, sobretudo, à esmola dos transeuntes, nomeadamente em recintos de feira – é disputado como ‘preciosa herança’ pelos tios: o velho sacristão Pedro Gailo, casado com a jovem Mari-Gaila, e a irmã da mãe, Marica. São, afinal, os Gailos que levam a melhor e vão ganhando algum dinheirinho, até porque Mari-Gaila não deixa de usar também os seus dotes sedutores… E, um dia, no meio dessas grandes embrulhadas, é ela, porém, quem abandona o idiota e acaba por ‘fugir’ com um vagabundo, diz-se; e o pessoal, levado da breca, encharca o pobrezinho do anão em aguardente (vamos, amigo, dá lá mais um urro, para a gente se rir!...) e assim ele acaba por entregar a alma ao Criador. Quem o sepulta quem não o sepulta, agora que já não rende mais? E nova embrulhada se gera; Marica não se coíbe de lançar imprecações contra a família e o mundo (é, seguramente, um dos momentos altos da interpretação de Teresa Côrte-Real) e Mari-Gaila, qual a mulher adúltera do Evangelho, acaba por ver-se exposta, desnudada, apedrejada sem dó nem piedade – quiçá venha daí a razão de ser do título, pois na narração evangélica se diz que Cristo, quando lhe apresentaram uma adúltera e lhe perguntaram que se lhe havia de fazer, escrevendo serenamente com um dedo no pó do caminho, retorquiu: «Quem de vós estiver sem pecado que lhe atire a primeira pedra!».

O dramaturgo galego Ramón del Valle-Inclán (1866-1936) escreveu Divinas Palabras em 1919, peça que, no entanto, só seria levada à cena, pela primeira vez, em Madrid, no Teatro Español, a 16 de Novembro de 1933. Pertence, pois, à última fase da sua produção literária, aquela a que ele chamou do «esperpentismo», assim uma forma de grotescamente distorcer a realidade, que, já nesses primeiros tempos do século XX, se lhe antojava difícil de observar a não ser em jeito de tragicomédia.

«Em jeito de tragicomédia»… foi, porventura, conscientemente ou não, o intuito de Carlos Avilez ao propor agora a representação desta peça, porque se, por um lado, não há «palavras divinas» que se oiçam, por outro, há os que as ouvem muito à letra – e os jornais dão conta amiúde de mortes por apedrejamento nesta plena 2ª década do século XXI. E ainda: que vemos por aí de exploração em relação a quem nasce estropiado ou como tal ousa fingir-se?...

As pedras rolam no palco. Deveriam rolar também nas consciências!...

Uma dedicatória

Por razões de saúde, João Vasco tem-se mantido afastado das luzes da ribalta e fazemos votos para que rapidamente melhore, pois do seu talento muito ainda há a esperar. Contudo, não quis Carlos Avilez de, em breve nota, aludir ao facto de ter sido com João Vasco, em 1964, figurante nesta mesma peça, encenada então por José Tamayo e representada pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro.

«Um dos espectáculos que mais me impressionou e mais influenciou o meu trabalho como encenador», confessa. Por isso, dado que, no ano seguinte, ambos acabariam por fundar o TEC, Carlos Avilez fez questão em, «para além de agradecer a todos os que me ajudaram neste trabalho», agradecer a João Vasco «esta maravilhosa viagem e dedicar-lhe este espectáculo».

Dois representantes dos alunos quiseram também dar o seu testemunho: uma pessoa «com uma humildade tão própria de todos os que são grandes»; João Vasco, um «Mestre», «um homem que nos trouxe o melhor que sabia e, sobretudo, nos transmitiu o que é a paixão pelo teatro, a razão principal para o fazer: um acto de amor».

À saída

Não resisto a dar conta do que senti à saída, após ter assistido ao desfilar de tantas personagens – há o mariconço, há o sacristão que parece viver noutro mundo, há a cadela Coimbra, o pássaro Colorín, um sapo anónimo, um bode… Toda a Natureza e toda a aldeia parece que ali se ajuntaram para ver como é que tudo se passava, com o pobre diabo, com a beleza explorada de uma, também ela simbólica, Mari-Gaila!...

Ficaram-nos os urros da criatura encaixotada e rendosa, a algazarra dos foliões, o pranto silencioso de quem se vê obrigado a, mesmo sem o querer, ter de baixar os braços. Até quando?

 

 

cyberjornal, 9 de julho de 2014

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