Saltimbancos ou críticos ferozes?

 

 

 

saltimbancos22Por: José d’Encarnação

Cada vez mais válida a máxima do poeta parisiense Jean de Sauteul (1630-1697) que aponta como mote para a comédia: Castigat ridendo mores, é a rir que se vergastam os costumes!

Um hábito bem português este, que já vem de Gil Vicente e que diariamente vemos consubstanciado nas anedotas que, por tudo e por nada, se inventam, a ridicularizarem, neste momento, os alvos preferenciais: os ditos «governantes» europeus, esses tais que, bem iludidos, pensam estar a governar – ou a governar-se.

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Justifica-se, pois, em pleno, a pergunta «Saltimbancos ou críticos ferozes?», quando, de pé, aplaudimos a peça Os Saltimbancos, que o Teatro Experimental tem em cena, desde 13 de Novembro, de quinta a domingo, no Mirita Casimiro, até ao próximo domingo, 29, inclusive.

Uma ‘opereta cómica’ seria, porventura, a expressão adequado para qualificar esta aparente brincadeira que o brasileiro Chico Buarque adaptou, em 1977, a partir de um disco de músicas infantis do compositor argentino Luis Enríquez Bacalov. As músicas ficam no ouvido (Hugo Neves Reis e Pedro F. Sousa encarregaram-se da orquestração e da direcção musical). É contagiante a alegria da pequenada do ATL da Galiza, a contracenar com actores consagrados do TEC (parabéns, Natasha Tchitcherova, pela exímia coreografia; parabéns, Carlos Avilez, pela encenação e tão adequado ‘enquadramento’!). Pasmamos (mais uma vez!) com a geométrica e minimalista eloquência da cenografia e dos figurinos (um abraço, Fernando Alvarez!). Saímos contentes, mui agradados daqueles cerca de 45 minutos em que o espectáculo no envolve e delicia! Aliás, apetece voltar!

Mas…

… Miguel Graça, o responsável por esta versão e pela dramaturgia, põe bem o dedo na ferida, na apresentação que, no programa, faz do espectáculo, ao mostrar como logo Chico Buarque, então em pleno período de ditadura militar, emprestara aos personagens um cunho bem específico:

«O Jumento é um intelectual capaz de juntar os outros em seu redor, o Cachorro um militar obediente, a Galinha uma operária e a Gata uma artista».

E acrescenta:

«Hoje não vivemos numa ditadura […]. Mas vivemos num país e numa Europa em que os cidadãos são vistos como meio imediato para resolver uma crise financeira e económica causada pela banca e pela especulação com o consentimento ou inépcia dos governantes».

E, mais adiante:

«A sociedade é democrática mas os deputados estão obrigados a uma disciplina de voto; acreditamos no direito de escolha mas impomos limite de mandatos porque o poder corrompe e o povo não tem capacidade de o perceber».

Cá está! Naquela tradição espantosa do Feiticeiro de Oz (aliás, este musical constitui uma adaptação do conto «Os músicos de Bremen» dos Irmãos Grimm), do Principezinho (de Saint-Exupéry) e, até, do D. Quixote de Cervantes (porque não?), os saltimbancos decidem sair da aldeia e rumar à cidade, na esperança de ali encontrarem oportunidades melhores. Coitados!...

Verificam – tarde de mais? – que seu sonho de vida não tem realidade possível, que na cidade são bem outros os interesses e que não são minimamente o deles, que é o de se dedicarem àquilo que sabem fazer – e não os deixam! Não hesitam, porém, em proclamar bem alto: «Todos juntos somos fortes!». A proclamação que se impõe! E, por isso, até gostaríamos que, finda esta primeira série de apresentações (termina no domingo!), a peça fosse reposta – porque é urgente!

António Marques é o jumento intelectual; Pedro Caeiro, o obediente cachorro: Teresa Côrte-Real, a estapafúrdia galinha; Paula Sá, a gatinha sensual. Lá em cima, num mundo superior (tinha que ser!), os patrões: Elsa Gama, Fernanda Neves, Jorge Vasconcelos, Paulo B., Renato Pino, Salomé Duarte e Sérgio Silva. David Esteves, Filipe Abreu, Gonçalo Romão e Raquel Oliveira brincam aos palhaços. E mencionem-se também os nomes dos meninos do ATL que dão vida ao coro (e não só!): Adelina Costa, Andreza Silva, Beatriz Esteves, Érica Silva, Iara Delgado, João Có, Márcia Santos, Miriam Fura, Nalbertino Tigna, Selma Filipe,Suely Gonçalves e Tânia Cardoso.

Aplausos!

 

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cyberjornal, 23 dezembro 2013

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